As respostas

Jéssica Borges de Oliveira | OAB-GO 55.085
jessborgesoliveira@gmail.com


**História e nomes fictícios, criada para reflexão!


Quando busquei a Lorena na escola, notei que ela estava muito quieta. Aquele foi o primeiro dia de aula no 2º ano e eu tinha muitas expectativas, queria saber se ela fez novas amizades, se gostou da professora nova... enfim, tudo o que ela quisesse contar. O problema é que ela, geralmente falante, estava calada e pensativa.

Como mãe preocupada, logo achei que o dia tinha sido um desastre. Ela olhava pela janela, durante o caminho para casa e aparentava feliz. Até tentei me segurar, mas não aguentei:

- Filha, como foi na escola? – depois de alguns segundos, ela olhou para frente e respondeu:

- Muuuuito legal mãe!

E, claro, eu não estava satisfeita com a resposta:

- Legal como? Conta mais detalhes!

- Ahhhh mãe! Minha professora nova é tão divertida! Ela tem cara de brava, mas fez uma brincadeira para saber o nome de todo mundo, falou várias coisas legais que vamos aprender esse ano... acho que vou gostar dela. Ah! Ela só passou só uma tarefa, estou pensando nas respostas.

Consegui que ela falasse e isso foi um alívio enorme. Porém, algo me intrigou novamente. A Lorena sempre gostou de ir para a escola, mas pensar na tarefa no carro? O que tinha de interessante nessa tarefa?

- E... Sobre o que é a tarefa?

- Só umas perguntas, mãe. Depois te mostro.

Ao chegarmos em casa, ela correu para abraçar os avós e brincar com nossa gatinha Milu. Então, aproveitei para espiar a bendita tarefa. Na folha, estava escrito: “Começamos um novo ano! Para te conhecer melhor, vamos responder algumas perguntas? 1) quem sou eu? 2) O que gosto de fazer? 3) O que me marcou no ano passado? 4) O que desejo para esse ano?”.

Antes que ela reparasse, devolvi a folha e fui preparar o jantar, perdida em pensamentos. Após a refeição, sugeri fazermos a tarefa, mas ela contou que estava pronta e me mostrava de manhã.

Estava receosa com a pergunta nº 3, já que eu e o pai dela tínhamos nos divorciado no ano anterior. Sei que tentei ao máximo poupa-la dos reflexos da separação. Sei também que não posso protege-la de tudo.

Depois do divórcio, o Otávio só buscou a Lorena duas vezes nos últimos quatro meses. Na primeira vez que ele não apareceu, fiquei furiosa, mas disfarcei. A Lorena perguntou se “o papai tinha esquecido”, respondi que ele teve um problema no trabalho e não chegaria a tempo. Nas ocasiões seguintes, ela não questionou e eu, somente inventei algo para fazermos.

Assim que ela adormeceu, abri cuidadosamente a pasta, li as respostas e me surpreendi:

 

1)   Quem sou eu? Eu sou a Lorena e tenho 7 anos.

2)   O que gosto de fazer? Eu gosto muito de desenhar e brincar com as minhas amigas.

3)   O que me marcou no ano passado? Eu aprendi a ler, mudamos e agora moramos com o vovô e a vovó. Não vejo muito o papai, ele não mora com a gente mais. Como minha mãe falou, eles não deixaram de ser meus pais e quando o papai estiver mais feliz, ele vai me buscar mais vezes. Ele sempre perde quando jogamos videogame, acho que ele está aprendendo a jogar antes de me buscar.

4)   O que desejo para esse ano? Ver toda minha família feliz.

 

Fechei a pasta com lágrimas nos olhos. Nunca imaginei que ela pensasse daquela forma. Senti que minha dedicação, pensando no melhor para ela, valeu a pena e surgiu em mim uma força ainda maior para continuar lutando por nós.

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